quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

Trajetórias e Territorialidades Negras - Parte I

As experiências e trajetórias sociais dos negros do Brasil expõem a complexidade e as tensões de uma sociedade marcada por hierarquizações e desigualdades, ao mesmo tempo que se constituem em reelaborações criativas de referências culturais, no cruzamento tenso de diferentes tradições frente a experiências de rupturas e desenraizamentos, e a marca da construção de novas territorialidades, pertencimentos e socialidades. Desenraizamentos de diversas tradições de povos africanos – bantus, nagôs, jejes, fulas, fanti, ijexás, cabinda, mandingas, entre outros – que se reinventaram fragmentária e criativamente como visão de mundo em novas religiosidades que se cruzaram com tradições católicas, espírita e com xamanismos indígenas, nas diversas religiões afrobrasileiras, marcando a rica diversidade cultural de vivências, estéticas e interpretações da realidade. Rupturas e violências desestabilizadoras da época da escravidão, vivas na memória social, e que são restituídas em movimentos estéticos negros, ou nas territorializações cotidianas de comunidades quilombolas, nas performances musicais de sambistas, rappers e diferentes formas de lidar com racismos e desigualdades presentes.   


As comunidades remanescentes de quilombos, o Rio Grande do Sul, organizadas por redes de parentesco, habitam territórios e paisagens comuns em que se enraízam na lida cotidiana do trabalho e da moradia, nas festas religiosas e da família.
Essas comunidades narram pertencimentos de longa duração, atualizando memórias coletivas de ancestralidade escrava e resistência cultural.

Na imagem, quilombolas da comunidade de Cerro-Espumoso, “na lida” entre o roçado e a casa.


Nas fotografias e reproduções doadas por familiares, imagens que se desdobram em narrativas de lembranças por elas evocadas, pode-se trilhar percursos sociais que os negros experienciaram em suas complexas inserções no tecido social brasileiro e gaúcho.





Na trajetória de formação das casas de Nação e das Famílias de Santo da religião do Batuque no Rio Grande Do Sul, observa-se, no retrato, o gesto – linguagem corporal – de Mãe Apolinária (ao centro), que exibe prestígio e respeito da importância de seu estabelecimento na década de 1950.








Na imagem, Mãe Deolinda de Xangô Iomé, segurando carneiro e com filhos de sua Casa de Religião em Porto Alegre, início do século XX, em contexto de pós-abolição, quando rituais de matriz de tradição africana eram proibidos e veementemente perseguidos pelo Estado. Importante na formação das Famílias de Santo e do cenário religioso da época. Mãe Deolinda deu origem a diversas casa de culto de tradição Ijexá.




*trecho retirado do Catálogo do Acervo Arqueológico e Etnográfico Museu Antropológico do Rio Grande do Sul

Catálogo do acervo arqueológico&etnográfico/Coordenação de Walmir Pereira.-Porto Alegre: Companhia Rio-grandense de Artes Gráficas (CORAG), 2012.

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